Domingo
A praça, a cidade, o amor e a alma
Segunda-feira
E o mundo, como vai?
Fui ao correio. O rapaz era de uma simpatia sem fim. Demonstrava calma e satisfação. Foi gentil ao perguntar se os selos que eu queria eram para cartões de Natal; sendo assim, vendeu-me estampas relativas à festa. Foi atencioso ao informar-me os preços de uma carta ao exterior, sem tentar me empurrar o serviço mais caro. Quando fui pagar, disse-lhe que procuraria algumas moedas. “Eu ficaria muito agradecido”, ele comentou. Dei o dinheiro, desejei boa semana e um feliz Natal. Com um sorriso no rosto, agradeceu e desejou-me um bom dia.
Nem bem saía do correio, uma pessoa que entrava atropelou-me na porta, ignorando totalmente a prática de que tem a preferência aquele que sai. Não fiz certamente uma cara muito agradável e resmunguei qualquer coisa. A esta altura do dia, já tento me convencer de que ela fez isso apenas porque estava quente e ela queria entrar com urgência no ar-condicionado. Talvez isso não justifique, mas vamos pensar que de repente ela estivesse passando mal, de repente estivesse atrasada para o compromisso mais importante da vida dela. E talvez o compromisso mais importante da vida dela fosse encontrar aquele atendente simpático. Só espero que ela tenha tirado proveito disso.
Receitas
Pega-se o cotidiano da moça do chá mesmo: ela pode morar em um sugestivo prédio da Cristóvão Colombo, vizinho a uma loja com o indutivo nome de Leviathan (de Hobbes, alguém conhece?), e com duas janelas empilhadas, magras e compridas. Na janela de cima, uma senhora quase gorda limpa o vidro: ela é do exato tamanho da janela e pode ser vista dos pés à cabeça. Na janela de baixo, vazia, somente um gato gordo vigia os passantes, todo de preto, mal conseguindo ocupar a janela na horizontal.Podem-se traçar tantos paralelos na vida, alguém diria...
Para poesia, as palavras devem fluir com espontaneidade: jogam-se as palavras à medida que elas pedem para nascer, fortes, por vezes tão fortes que não precisam de articulações. O sentido não está em fazer sentido, tampouco em não fazer. O sentido está em se dizer com menos: não há espaço nem graça para explicar o que deve se explicar sozinho.
Rimas? Não necessariamente.
O bom da poesia é... brincar.
Brincar com os pontos
:
brincar
brincar
...
pular
pular pular as linhas
e os espaços
lá
surgir do nada
ali.
c
o
n
c
r
e
t
i
s
t
a
construindo.
como
Cummings
Terça-feira
Thaís
Eu me chamo Thaís. Sou engenheira. Faço cálculos o dia inteiro. Acho um saco, mas não tenho muita outra idéia pra mudar essa parte da minha vida. Fico sonhando com o dia em que minha caderneta de poupança me possibilite comprar uma casa enorme à beira de um lago, em um lugar tranqüilo, onde eu possa descansar nos finais de semana ao lado do meu futuro marido e dos filhos que ainda teremos. Quando penso nisso chego a ficar com lágrimas nos olhos, porque o amor da minha vida está difícil de aparecer. Moro em um apartamento com meus pais e a minha avó. Estou juntando dinheiro para morar sozinha. Tenho dois irmãos: um deles é casado e em breve vai ser papai. Estamos todos ansiosos pela chegada de um novo membro na família.
Até mais!!
Thaís
* Jana tem 27 anos e é acompanhante, Thaís tem 25 anos e é engenheira, Bruna, 24 anos, estuda hotelaria, Sabrina é professora de inglês, Carla é jornalista, Helena é psicóloga. Jana, Thaís, Bruna, Sabrina, Carla e Helena se conheceram na aula de inglês e descobriram que, além de adorarem escrever, escrever faz muito bem.
Sábado
Jana
Eu me chamo Jana. Nunca fui uma aluna brilhante – longe disso -, mas sempre tinha alguma idéia que me permitia passar de ano. Acho que com isso acabei ficando confiante, segura de mim. Também aprendi a não me desesperar, pois tudo sempre acaba dando certo – nem que, para isso, seja necessário contar algumas mentiras e passar por cima de algumas pessoas: tudo em nome da sobrevivência.
Tenho 27 anos e até hoje tenho sobrevivido bem. Muito bem, graças a Deus. Sei cuidar de mim. Vivo sozinha e estou feliz desse jeito. Não tenho filhos, namorado, nenhum penduricalho. Adoro ficar em casa aos domingos, só de pijama, olhando TV e comendo pipoca. Domingo eu como só pipoca. Sempre são muitos tipos de pipoca, não é mesmo? Dá para variar bastante e eu não enjôo. Semana passada comi de cheddar; para o próximo domingo já tenho a de canela e a de pimenta, ambas me esperando no armário.
Minha família (mãe, tia, pais, sobrinhos e esse tipo de gente) mora quase do outro lado do país, a maioria no interior. Não mantenho muito contato com eles. Saí de casa aos 17 anos para estudar moda. Ralava muito para pagar minhas despesas. Servia café. Ninguém acreditava em mim. Minha família não acreditou em mim. Eu até podia ter tido futuro no mundo da moda mas enchi o saco. Não gostava mesmo daquilo. Passei a freqüentar festas bacanas e um dia, pra zoar de um homem, falei que só ia pra cama por dinheiro. Era brincadeira e ele topou. E hoje eu faço isso pra viver. Sou boa nisso e adoro seduzir. Não vou dar muitos detalhes porque é brega. É brega escrever sobre isso e muita gente já escreve. Tem gente que diz que é perigoso, é sofrível e sofrido fazer o que eu faço pra sobreviver. Tem gente que diz que é charmoso. Eu não pertenço nem a um nem a outro grupo, mas posso garantir que é bem melhor do que servir cafezinho. Pelo menos para mim. Eu era muito humilhada servindo cafezinho. Ninguém dá nada pela moça do cafezinho.
Por hoje é só,
Jana
* Jana tem 27 anos e é acompanhante, Thaís tem 25 anos e é engenheira, Bruna, 24 anos, estuda hotelaria, Sabrina é professora de inglês, Carla é jornalista, Helena é psicóloga. Jana, Thaís, Bruna, Sabrina, Carla e Helena se conheceram na aula de inglês e descobriram que, além de adorarem escrever, escrever faz muito bem.
Domingo
Hélène
Segunda-feira
Everybody is looking for something
Alguns procuram por um amor. Moças procuram no lugar errado – e acabam saindo com um garanhão tarado.
Outros procuram por dinheiro – e, quando encontram, perdem ligeiro.
Há quem procure por droga ou bebida; esses se estoporam logo de saída.
Existe a procura por filhos perdidos; mães desesperadas, esposas abandonadas por seus ex-maridos.
E eu, eu só queria achar os meus óculos esta manhã. Lembro-me de tê-los deixado na mesa, perto daquela maçã.
Domingo
Dez pras cinco
Severina
Quinta-feira
Julia
Eu tenho uma amiga, uma colega, vamos chamá-la de Julia. Julia às vezes me pega para confidente porque diz que a maioria das pessoas que conhece se conhecem entre si e então não pode pedir opiniões sobre elas mesmas umas às outras. Para não afogar no meio desse emaranhado e ainda sem muita coragem de fazer terapia, Julia tem a mim.
Julia me contava, com certo sofrimento, o quanto ela é sensível às pessoas. É tão sensível a sorrisos e a olhares emocionados quanto à indiferença e à crítica. Julia pede três vezes uma tesoura emprestada a uma colega de trabalho e acha que já pediu demais. A colega de trabalho não sorri para ela e ela já começa a se culpar por ter pedido a tesoura. Julia se sente tão mal com isso que pensa em correr ao supermercado ao meio-dia só para comprar um bombom ou uma barra de chocolate para presentear a colega como um agradecimento e um pedido de desculpas. “É como se eu quisesse mostrar a ela que não a estava usando nem me aproveitando dela”, explica Julia, um pouco embaraçada. “Mas você precisava da tesoura”, eu digo. “É, eu precisava da tesoura”, ela confirma. “Mas eu precisava, mais ainda, era de aprovação.” Julia sempre teme estar fazendo algo errado e sempre precisa de aprovação, pois ela mesma parece não conseguir julgar quando fez algo direito ou quando não fez.
Espero que Julia melhore, ganhe um pouco mais de confiança. Que ela faça as coisas direitinho ou com uma boa intenção e se convença disso por si só, sabendo que não precisa acertar sempre. Mais do que isso, ainda, espero que Julia aprenda a interpretar com menos sensibilidade os gestos alheios, ou que consiga viver além deles. Julia precisa mesmo é de dizer: “Vocês têm de me engolir”, afinal é impossível agradar a todos. E acho que ela está pronta a começar o caminho, porque conclui: “Quanto mais eu tenho tentado ser simpática, mais os meus sorrisos me parecem falsos e artificiais.”
Julia parece ser uma amiga fiel, mas carece de paixão, de compaixão e de paciência com os seres humanos. Inteligente e cheia de personalidade, ela indaga: “Como nos tornamos uma pessoa de carisma, agradável a todos?” Conversando, descobrimos que Julia faz tanto esforço para agradar aos outros, que não entende ou não aceita como os outros se importam somente consigo mesmo em vários momentos. Essa parcela de incompreensão faz parte do egoísmo de Julia, por mais que ela lute para não ter defeitos. Ela até sabe disso, e como punição não se permite aproximar-se dos outros com uma sincera simpatia. Não consegue se conectar verdadeiramente aos outros. Mas eu arriscaria dizer que Julia não sofre pela falta de aproximação, e sim pela falta de aprovação, que coloca seu perfeccionismo em xeque.
No fim da conversa, ela promete a si mesma que vai tentar dar um jeito nesse perfeccionismo, mas queria mesmo era se livrar da sensação de que algo de bom precisa encobrir algo de ruim. “De onde eu tirei isso?”, encuca-se Julia. Eu não sei, minha amiga. Mas vamos ligeiro colocar algo no lugar disso. “Algo de bom”, apresso-me a dizer. E rimos juntas.

