Domingo

A praça, a cidade, o amor e a alma

Há alguns anos eu já tive essa sensação de que amava a minha cidade. A minha cidade tem uma praça no centro que particularmente me trazia essa sensação. A saudade ficava contida e explodia nesse encontro, meu e da praça. Havia velhinhos nos bancos, pintores, engraxates; havia cafés e senhoras neles reunidas para falar francês, atraídas pela Aliança Francesa que ficava ali perto. Havia árvores de um lado e McDonald’s de outro. Prédios históricos cor-de-rosa ou amarelos se destacavam por todos os lados de um shopping center e ofuscavam edifícios cinzas de pinturas descascadas. Para mim, era como se essa praça empurrasse para o lado o centro da cidade. As pessoas ali pareciam andar um pouco mais devagar e olhar umas para os olhos das outras. O rio ao lado embalava os caminhares, e o frio era capaz de deixar a praça ainda mais bela, mais típica, mais própria, única. Gorros, cachecóis coloridos e narizes vermelhos eram as flores da estação gelada. Mendigos se enroscavam em cobertores xadrez, tentando dormir ao som de cantos de passarinhos ou músicas latino-americanas. A praça tinha, para mim, uma alma: uma alma que eu nunca consseguia trazer para casa. Não importava quantas fotografias a praça pudesse me dar: só a proximidade era capaz de me mostrar a sua vida.

Segunda-feira

E o mundo, como vai?

Fui ao correio. O rapaz era de uma simpatia sem fim. Demonstrava calma e satisfação. Foi gentil ao perguntar se os selos que eu queria eram para cartões de Natal; sendo assim, vendeu-me estampas relativas à festa. Foi atencioso ao informar-me os preços de uma carta ao exterior, sem tentar me empurrar o serviço mais caro. Quando fui pagar, disse-lhe que procuraria algumas moedas. “Eu ficaria muito agradecido”, ele comentou. Dei o dinheiro, desejei boa semana e um feliz Natal. Com um sorriso no rosto, agradeceu e desejou-me um bom dia.

Nem bem saía do correio, uma pessoa que entrava atropelou-me na porta, ignorando totalmente a prática de que tem a preferência aquele que sai. Não fiz certamente uma cara muito agradável e resmunguei qualquer coisa. A esta altura do dia, já tento me convencer de que ela fez isso apenas porque estava quente e ela queria entrar com urgência no ar-condicionado. Talvez isso não justifique, mas vamos pensar que de repente ela estivesse passando mal, de repente estivesse atrasada para o compromisso mais importante da vida dela. E talvez o compromisso mais importante da vida dela fosse encontrar aquele atendente simpático. Só espero que ela tenha tirado proveito disso.

Receitas

Ora, tudo pode virar um romance, uma poesia, um conto. É a modelo que aparece anunciando chá para emagrecer numa revista, o motorista de táxi, a menina que aguarda cirurgia no hospital... Todos têm uma vida, uma história. Mesmo se essas histórias não são interessantes, que importa? Inventa-se. Eu uma vez pensei em uma história...

Pega-se o cotidiano da moça do chá mesmo: ela pode morar em um sugestivo prédio da Cristóvão Colombo, vizinho a uma loja com o indutivo nome de Leviathan (de Hobbes, alguém conhece?), e com duas janelas empilhadas, magras e compridas. Na janela de cima, uma senhora quase gorda limpa o vidro: ela é do exato tamanho da janela e pode ser vista dos pés à cabeça. Na janela de baixo, vazia, somente um gato gordo vigia os passantes, todo de preto, mal conseguindo ocupar a janela na horizontal.

Podem-se traçar tantos paralelos na vida, alguém diria...

Para poesia, as palavras devem fluir com espontaneidade: jogam-se as palavras à medida que elas pedem para nascer, fortes, por vezes tão fortes que não precisam de articulações. O sentido não está em fazer sentido, tampouco em não fazer. O sentido está em se dizer com menos: não há espaço nem graça para explicar o que deve se explicar sozinho.

Rimas? Não necessariamente.

O bom da poesia é... brincar.

Brincar com os pontos
:
brincar
brincar
...
pular
pular pular as linhas
e os espaços


surgir do nada
ali.

c
o
n
c
r
e
t
i
s
t
a
construindo.
como
Cummings

Terça-feira

Thaís

Eu me chamo Thaís. Sou engenheira. Faço cálculos o dia inteiro. Acho um saco, mas não tenho muita outra idéia pra mudar essa parte da minha vida. Fico sonhando com o dia em que minha caderneta de poupança me possibilite comprar uma casa enorme à beira de um lago, em um lugar tranqüilo, onde eu possa descansar nos finais de semana ao lado do meu futuro marido e dos filhos que ainda teremos. Quando penso nisso chego a ficar com lágrimas nos olhos, porque o amor da minha vida está difícil de aparecer. Moro em um apartamento com meus pais e a minha avó. Estou juntando dinheiro para morar sozinha. Tenho dois irmãos: um deles é casado e em breve vai ser papai. Estamos todos ansiosos pela chegada de um novo membro na família.

Até mais!!

Thaís

* Jana tem 27 anos e é acompanhante, Thaís tem 25 anos e é engenheira, Bruna, 24 anos, estuda hotelaria, Sabrina é professora de inglês, Carla é jornalista, Helena é psicóloga. Jana, Thaís, Bruna, Sabrina, Carla e Helena se conheceram na aula de inglês e descobriram que, além de adorarem escrever, escrever faz muito bem.

Sábado

Jana

Eu me chamo Jana. Nunca fui uma aluna brilhante – longe disso -, mas sempre tinha alguma idéia que me permitia passar de ano. Acho que com isso acabei ficando confiante, segura de mim. Também aprendi a não me desesperar, pois tudo sempre acaba dando certo – nem que, para isso, seja necessário contar algumas mentiras e passar por cima de algumas pessoas: tudo em nome da sobrevivência.

Tenho 27 anos e até hoje tenho sobrevivido bem. Muito bem, graças a Deus. Sei cuidar de mim. Vivo sozinha e estou feliz desse jeito. Não tenho filhos, namorado, nenhum penduricalho. Adoro ficar em casa aos domingos, só de pijama, olhando TV e comendo pipoca. Domingo eu como só pipoca. Sempre são muitos tipos de pipoca, não é mesmo? Dá para variar bastante e eu não enjôo. Semana passada comi de cheddar; para o próximo domingo já tenho a de canela e a de pimenta, ambas me esperando no armário.

Minha família (mãe, tia, pais, sobrinhos e esse tipo de gente) mora quase do outro lado do país, a maioria no interior. Não mantenho muito contato com eles. Saí de casa aos 17 anos para estudar moda. Ralava muito para pagar minhas despesas. Servia café. Ninguém acreditava em mim. Minha família não acreditou em mim. Eu até podia ter tido futuro no mundo da moda mas enchi o saco. Não gostava mesmo daquilo. Passei a freqüentar festas bacanas e um dia, pra zoar de um homem, falei que só ia pra cama por dinheiro. Era brincadeira e ele topou. E hoje eu faço isso pra viver. Sou boa nisso e adoro seduzir. Não vou dar muitos detalhes porque é brega. É brega escrever sobre isso e muita gente já escreve. Tem gente que diz que é perigoso, é sofrível e sofrido fazer o que eu faço pra sobreviver. Tem gente que diz que é charmoso. Eu não pertenço nem a um nem a outro grupo, mas posso garantir que é bem melhor do que servir cafezinho. Pelo menos para mim. Eu era muito humilhada servindo cafezinho. Ninguém dá nada pela moça do cafezinho.

Por hoje é só,

Jana

* Jana tem 27 anos e é acompanhante, Thaís tem 25 anos e é engenheira, Bruna, 24 anos, estuda hotelaria, Sabrina é professora de inglês, Carla é jornalista, Helena é psicóloga. Jana, Thaís, Bruna, Sabrina, Carla e Helena se conheceram na aula de inglês e descobriram que, além de adorarem escrever, escrever faz muito bem.

Domingo

Hélène

Hélène Bee está sentada em meio a uma redação barulhenta de jornal, mas em poucos minutos tudo estará calmo. Repórteres terão saído para fazer suas matérias na rua, acompanhados por motoristas e fotógrafos, e a secretária captará eficientemente cada ligação e anotará os recados. Apenas dois telefones estarão disponíveis para atender chamadas: o de Hélène e o de seu chefe, Greg. O chefe de Hélène é um bonitão, embora as fotos e as fofocas digam que já foi mais. Hélène admira sua voz e a sua competência, e sabe que ele compartilha da mesma admiração para com ela. Ela adora ser admirada por Greg e, para ele, representa a mulher misteriosa. Misteriosa e poderosa. Hélène é uma mulher insegura e cheia de medos, mas diante de Greg esconde suas fragilidades e acaba por incorporar o papel de uma intelectual instigante e inabalável que a figura de Greg lhe imputa. Ela é aquilo que Greg deseja, e sabe que para continuar sendo precisa continuar representando. Essa representação lhe faz bem, muito bem, e por vezes Greg volta a tentar convidá-la para um jantar ou uma viagem a dois. Os jantares ela às vezes aceita, mas como amiga, colega de trabalho, como alguém que quer divertir-se sem contudo entregar-se. Hélène sabe que, assim, também é um brinquedo na mão de Greg. Um brinquedo que dá a ele o que deseja, pois Greg já saiu com várias mulheres, já foi casado e traiu a mulher várias vezes, indicando que o que busca é somente excitação. Hélène é, para ele, excitação. Ela sabe que não é mulher para Greg, mas não pode deixar que ele saiba. Deixa que ele sonhe que sim. Às vezes, quando está triste, Hélène escreve para desabafar suas asneiras. Só compartilha com as letras aquilo que poderia muito bem compartilhar com Greg, que passa os dias a seu lado e estaria muito bem disposto a ouvi-la. Mas, se ela falasse, ela não seria mais Hélène Bee. Espia Greg pela terceira vez por trás do monitor e ele a está olhando. Hora de fechar tudo aqui e fingir que qualquer coisa esteja acontecendo na tela do computador, qualquer coisa que não esteja relacionada a Greg. A Hélène de Greg é inatingível. – Hélène, não estou conseguindo achar uma pessoa aqui – pede, em socorro, Greg. – Me manda o que tem dela por e-mail. Hélène estremece. São poucos os dados. Pouquíssimos. Praticamente só o nome e uma cidade onde ele acha que a pessoa mora. Hélène cata o catálogo telefônico, mas depois de ligar descobre que isso Greg já vez. Tenta o Google. Nada. Pensa, pensa, pensa. Um estalo: currículo Lattes. Hélène nem sabe por que cargas d’água decidiu procurar no currículo Lattes, mas deu certo. Sem revelar seu segredo com o currículo Lattes, fornece a Greg o telefone do trabalho da pessoa que Greg quer localizar. Greg recebe com orgulho o e-mail de Hélène, o que ela pode perceber em seu sorriso metros adiante. Greg aposta em Hélène, acredita em Hélène, e em momentos como esse reforça sua certeza de ter feito a coisa certa quando a contratou. Hélène é uma profissional completamente satisfeita trabalhando ao lado de Greg. Ele dá a ela o reconhecimento e ela lhe dá um motivo para sentir-se diariamente vivo, ativo e animado. Ultimamente, porém, Hélène percebe mudanças em Greg. Ele tem se tornado extremamente hostil com ela. Hélène sente muito, mas já ofereceu ajuda caso ele estivesse com algum problema, mas se o problema for com ela, essa sociedade vai ter de acabar. Nem morta Hélène cairá nos braços de Greg. Nem morta! Afinal, Hélène já tem o seu amor.

Segunda-feira

Everybody is looking for something

Alguns procuram por um amor. Moças procuram no lugar errado – e acabam saindo com um garanhão tarado.

Outros procuram por dinheiro – e, quando encontram, perdem ligeiro.

Há quem procure por droga ou bebida; esses se estoporam logo de saída.

Existe a procura por filhos perdidos; mães desesperadas, esposas abandonadas por seus ex-maridos.

E eu, eu só queria achar os meus óculos esta manhã. Lembro-me de tê-los deixado na mesa, perto daquela maçã.

Domingo

Dez pras cinco

Às dez pras cinco tocou o telefone, maldito telefone. Como ela detestava quando o telefone tocava, ainda mais às dez pras cinco. Às dez pras cinco ela nasceu, às dez pras cinco ela sempre acordava entre os cinco e os dez anos, numa insônia providencial: era quando ela fazia os temas e estudava para as provas ou os ditados. Nunca conseguia tirar o dez, só o cinco. Isso ela sempre soube por que acontecia. O que ela nunca soube foi por que, depois de um beijo ardente, seu último amor resolveu deixá-la no meio de uma boate, de bolsa na mão. Ela já estava indo embora e olhou para o relógio. Não deu outra: ele marcava dez pras cinco.

Severina

Esta menina que se chama Severina tem um sorriso debochado que passa também por tímido (falo daquela cara sem jeito que fazemos quando rimos de algo que achamos engraçado e de repente nos damos conta que ninguém mais achou). É outra que ama os bichinhos e exibe com orgulho sua condição de menina mimada e voluntariosa – embora, simpática, em nada nos lembre uma menina mimada e voluntariosa. Está mais para mimosa, a Severina. Mas sua aparência deve enganar muito, então – enganar até a ela mesma, que jura que, para outros, a impressão que passa é de antipatia. Severina quer ser jornalista e bem famosa. Sonha em satisfazer seus sonhos e seus desejos e ainda os dos outros, porque caridade faz, sim, parte do vocabulário de Severina. Severina quer tudo, e por alguns momentos parece que conseguirá. Mas isso não importa muito, porque conseguir não é tão importante a ela quanto desejar. Conseguir o que quer imediatamente remete Severina à produção de um novo desejo, o que faz dela alguém incompleta, mas também inquieta. A vida de Severina até hoje tem sido de puro glamour e movimentação. Se algum dia deixar de ser é que seu sintoma a incomodará. Severina não pode parar, e nem nós podemos parar de olhá-la. Severina é pura voracidade atenuada por sorrisos dóceis e cativantes.

Quinta-feira

Julia

Eu tenho uma amiga, uma colega, vamos chamá-la de Julia. Julia às vezes me pega para confidente porque diz que a maioria das pessoas que conhece se conhecem entre si e então não pode pedir opiniões sobre elas mesmas umas às outras. Para não afogar no meio desse emaranhado e ainda sem muita coragem de fazer terapia, Julia tem a mim.

Julia me contava, com certo sofrimento, o quanto ela é sensível às pessoas. É tão sensível a sorrisos e a olhares emocionados quanto à indiferença e à crítica. Julia pede três vezes uma tesoura emprestada a uma colega de trabalho e acha que já pediu demais. A colega de trabalho não sorri para ela e ela já começa a se culpar por ter pedido a tesoura. Julia se sente tão mal com isso que pensa em correr ao supermercado ao meio-dia só para comprar um bombom ou uma barra de chocolate para presentear a colega como um agradecimento e um pedido de desculpas. “É como se eu quisesse mostrar a ela que não a estava usando nem me aproveitando dela”, explica Julia, um pouco embaraçada. “Mas você precisava da tesoura”, eu digo. “É, eu precisava da tesoura”, ela confirma. “Mas eu precisava, mais ainda, era de aprovação.” Julia sempre teme estar fazendo algo errado e sempre precisa de aprovação, pois ela mesma parece não conseguir julgar quando fez algo direito ou quando não fez.

Espero que Julia melhore, ganhe um pouco mais de confiança. Que ela faça as coisas direitinho ou com uma boa intenção e se convença disso por si só, sabendo que não precisa acertar sempre. Mais do que isso, ainda, espero que Julia aprenda a interpretar com menos sensibilidade os gestos alheios, ou que consiga viver além deles. Julia precisa mesmo é de dizer: “Vocês têm de me engolir”, afinal é impossível agradar a todos. E acho que ela está pronta a começar o caminho, porque conclui: “Quanto mais eu tenho tentado ser simpática, mais os meus sorrisos me parecem falsos e artificiais.”

Julia parece ser uma amiga fiel, mas carece de paixão, de compaixão e de paciência com os seres humanos. Inteligente e cheia de personalidade, ela indaga: “Como nos tornamos uma pessoa de carisma, agradável a todos?” Conversando, descobrimos que Julia faz tanto esforço para agradar aos outros, que não entende ou não aceita como os outros se importam somente consigo mesmo em vários momentos. Essa parcela de incompreensão faz parte do egoísmo de Julia, por mais que ela lute para não ter defeitos. Ela até sabe disso, e como punição não se permite aproximar-se dos outros com uma sincera simpatia. Não consegue se conectar verdadeiramente aos outros. Mas eu arriscaria dizer que Julia não sofre pela falta de aproximação, e sim pela falta de aprovação, que coloca seu perfeccionismo em xeque.

No fim da conversa, ela promete a si mesma que vai tentar dar um jeito nesse perfeccionismo, mas queria mesmo era se livrar da sensação de que algo de bom precisa encobrir algo de ruim. “De onde eu tirei isso?”, encuca-se Julia. Eu não sei, minha amiga. Mas vamos ligeiro colocar algo no lugar disso. “Algo de bom”, apresso-me a dizer. E rimos juntas.